por João Henrique Areias um dos pioneiros do marketing esportivo no Brasil.
Copa União completa 25 anos ainda em polêmica por Mauro Sant'Anna |
![]() Márcio Braga ajudou a criar o Clube dos 13 e formular a Copa União em 1987 (Mauro Sant'Anna) O dia 11 de julho de 2012 marca as bodas de prata do Clube dos 13, apelido daUnião dos Grandes Clubes Brasileiros, nome pomposo e digno de algo nascido com grandes aspirações. Mas que nunca se concretizaram. Hoje, a associação, sem credibilidade, representatividade e poder, agoniza. Mas deixou um legado: a Copa União, competição idealizada para revitalizar o futebol do país, que vivia uma crise sem precedentes, dentro e fora dos gramados. O Brasil passava por um período de entressafras. A inesquecível geração de 1982 dava sinais nítidos de desgaste, a começar pelo seu expoente, Zico, feito símbolo da campanha frustrante na Copa do Mundo de 1986, disputada no México, da qual a seleção se despediu traumaticamente nas quartas-de-final, eliminada pela França nos pênaltis. A chamada geração olímpica, medalha-de-prata em Seul, na Coreia do Sul, em 1988, tinha um time de craques do porte de Taffarel, Jorginho, Aldair, Leonardo, Dunga, Mazinho, Zinho, Muller, Bebeto e Romário. Porém, àquela época, ainda jovens promissores. As competições nacionais, com fórmulas complicadas, regulamentos ambíguos e inchaço de participantes (em 1986, a Confederação Brasileira de Futebolresolveu inserir as séries B e C na A, totalizando 80 clubes) produziam partidas deficitárias e desisteressantes. Times de massa recebiam adversários inexpressivos em estádios vazios. Como resultado, o título só saiu no ano seguinte (25 de fevereiro de 1987, São Paulo campeão) e terminou com média de público inferior a 14 mil expectadores. Em 1985, não passou dos 12000. O Botafogo, rebaixado, virou a mesa na Justiça Comum. Além dos torcedores, a desorganização afastou também patrocinadores e emissoras. A bomba estourou no dia 7 de julho de 1987, conforme explica Márcio Braga, muito mais que uma testemunha ocular desta história: "Dr. Otávio Pinto Guimarães (então presidente da CBF), ao vivo, no Jornal Nacional da TV Globo, afirmou que naquele ano a entidade não tinha condições de realizar o campeonato nacional, em razão de não ter datas suficientes nem recursos financeiros". O mandatário da CBF acenava com a possibilidade de fases classificatórias regionalizadas para diminuir os custos, que passariam a cargo dos clubes. Para tanto, o vice-presidente da entidade, Nabi Abi Chedid, sugeriu ao amigo Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo, a criação de um grupo de representantes para negociar os direitos de transmissão. Márcio Braga viu ali a oportunidade de tomar as rédeas do futebol brasileiro: "eu estava presidente do Flamengo (no terceiro mandato), peguei o telefone e liguei para SP. Falei com o Carlos Miguel que era a hora de os clubes agirem. Reunimos os quatro grandes de SP (São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos), os quatro do RJ (Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo), os dois de MG (Cruzeiro e Atlético Mineiro) e os dois do RS (Grêmio e Internacional) para organizar uma competição. Para ter alguém do Nordeste, chamamos o Bahia. Salvador é sempre uma praça excepcionalmente boa de receita e público. Assim, ganhamos da imprensa o apelido de Clube dos 13". A repercussão foi tamanha que posteriormente a alcunha foi adotada e virou marca registrada. Com a ajuda dos publicitários Celso Grellet e João Henrique Areias, respectivamente, gerentes de marketing de São Paulo e Flamengo, em poucos dias foi lançado o Campeonato Brasileiro, que ficou conhecido como Copa União, já criando polêmica, pois não considerava a classificação dos times na edição anterior. Como a proposta era de ruptura dos paradigmas de até então, um ponto zero, o Clube dos 13 fez da Série A uma festa privada, da qual foram barrados, entre outros,Guarani, finalista, e América-RJ, semi-finalista em 1986. O Coritiba, rebaixado neste mesmo ano com o Botafogo, foi convidado, bem como Santa Cruz e Goiás. Não por acaso, eram os 16 primeiros no ranking de competições da CBF. Apesar de não adotar critérios técnicos, a competição trazia algumas novidades inéditas no Brasil. Os clubes foram divididos em dois grupos de 8 cada. No turno, somente confrontos dentro do grupo. Já no returno ocorria o cruzamento dos grupos. O campeão do turno enfrentava o do returno em partidas de ida e volta. Os vencedores de cada grupo faziam a final. Mais enxuto (a diferença entre o primeiro e oúltimo jogo eram de apenas 100 dias) e com apelo (os 16 clubes representavam 95% dos torcedores), o certame ficou atraente. "Tivemos o patrocínio da TV Globo, que resolveu bancar o campeonato, e de outros como a Coca-Cola e a Varig", enaltece um orgulhoso Márcio Braga. No entanto, os 64 excluídos começaram a pressionar suas respectivas federações e estas, por conseguinte, a CBF. Clubes como Guarani e Portuguesa têm pouca torcida mas muito poder político. A entidade voltou atrás e criou seu Campeonato Brasileiro, com 3 divisões chamadas módulos: o amarelo, principal, tendo 16 clubes. Os 48 clubes restantes foram divididos nos módulos azul e branco. No dia 4 de setembro de 1987, a uma semana da abertura da Copa União, a CBF tomou para si, amparada pela lei, novamente a responsabilidade sobre o Brasileirão, assimilando a competição do Clube dos 13 com o nome de Módulo Verde e impondo o cruzamento dos campeões e vices dos módulos verde e amarelo, em fevereiro do ano seguinte, para indicar os representantes brasileiros na Copa Libertadores da América, facultando aos clubes apenas negociar os patrocínios e direitos de transmissão. Meia hora depois do início da competição, a entidade, enfim, apresentou o regulamento oficial. "Já na segunda rodada, a CBF, envergonhada, preparou o regulamento de uma outra competição, mas isto evidentemente não poderia modificar a que estava em andamento", indignou-se Márcio Braga. Mas, para garantir a legitimidade da Copa União, o Clube dos 13 havia indicado Eurico Miranda, então vice-presidente de futebol do Vasco da Gama, para representá-lo no arbitral da entidade. No regulamento do Campeonato Brasileiro consta a assinatura de Eurico, embora os dirigentes dos clubes garantam que não tiveram conhecimento do conteúdo do documento antes de sua publicação. No ano seguinte, o dirigente vascaíno foi convidado pelo novo presidente da CBF Ricardo Teixeirapara a direção de competições, função na qual criou a Copa do Brasil, torneio eliminatório reunino os campeões de todas as federações e classifica o vencedor à Copa Libertadores. Na quinta rodada, foi anunciada a determinação de que do cruzamento entre os módulos verde e amarelo sairia também o campeão brasileiro. Descrente, o América recusou-se a disputar o Módulo Amarelo, da CBF. O preço da rebeldia foi o banimento das competições nacionais até a anistia em 1996. Nem a posição no ranking (entre os 20 melhores do país) foi atenuante. Mesmo esta confusão ajudou a promover a Copa União. CBF e Clube dos 13 lavavam a roupa suja em horário nobre e nas primeiras páginas dos jornais. A competição virou sucesso de audiência e terminou com média de mais de 20 mil expectadores. Flamengo e Internacionaldecidiram o título e o rubro-negro levou a melhor (1 a 0 no Maracanã, gol de Bebeto, após empate em 1 a 1 na Beira Rio), aclamado como primeiro tetracampeão da história e a melhor geração depois do Santos de Pelé. "No fim do ano, por decisão unânime do Clube dos 13, Flamengo e Internacional foram declarados campeão e vice e ficou determinado que não haveria cruzamento porque o regulamento da CBF era irregular. A CBF reclamou, fomos ao Conselho Nacional de Desportos (CND) com esta questão e ele confirmou a decisão dos clubes, entendendo que a regra imposta pela CBF não poderia conflitar com a da Copa União", explicou Márcio Braga. Eurico Miranda, antes de ingressar na entidade, declarou: "o Flamengo é o campeão brasileiro, não há o que discutir". O CND foi criado por Getúlio Vargas durante o Estado Novo para que oGoverno Federal, que se confundia à época com o próprio Getúlio, pudesse interferir no esporte quando necessário. Vista como herança da ditadura e ameaça à democracia, a autarquia perdeu poderes com a Constituição promulgada em 1988 e foi extinta cinco anos depois pelo ex-presidente Itamar Franco. Curiosamente, Márcio Braga era um dos 512 deputados constituintes que assinaram a Carta Magna. "O órgão pode ter sido extinto mas a sua decisão permanece", sentencia e continua: "a polêmica se estabeleceu porque o Sport Club do Recife não aceitou essa decisão e foi para a Justiça Comum, coisa que a lei (estatuto da CBF) não permite aqui no Brasil, acharam que ganharam mas é choro de perdedor! Quem ganhou no campo foi o Flamengo, jogando com os maiores times do Brasil", alfineta Márcio. Não só acharam como de fato a 1a Vara Cível de PE deu ganho de causa ao Sport. O Flamengo recorreu e foi derrotado em todas as instâncias, até a sentença final, doSuperior Tribunal de Justiça (STJ). A CBF promoveu em fevereiro de 1988 o cruzamento entre os módulos verde e amarelo. Flamengo e Internacional, conforme previamente anunciado, não compareceram e foram eliminados por WO. A entidade indicou Sport Recife e Guarani, campeão e vice-campeão, respectivamente, do Módulo Amarelo, para a Copa Libertadores daquele ano. Mas até aí há confusão: na decisão do módulo, no ano anterior, após empate no tempo normal e na prorrogação, os times desistiram da disputa de pênaltis quando a série estava empatada em 11 a 11, alegando desgaste dos atletas. Dias depois, o clube paulista abriu mão do título da considerada Segunda Divisão em favor do pernambucano e a CBF acatou. A vitória por 1 a 0 sobre o Guarani, na Ilha do Retiro, deu ao Sport o inédito título brasileiro. A Caixa Econômica Federal, uma das patrocinadoras do Campeonato Brasileiro, encomendou um troféu metálico composto por esferas sustentadas por hastes, que, por esta composição, foi apelidado de "taça das bolinhas". A partir de então, o campeão ganhava uma cópia, enquanto a original, guardada num cofre da sede da instituição, no RJ, seria do primeiro clube com três títulos consecutivos ou que acumulasse cinco conquistas a partir de 1971, o que viesse primeiro. Eis que o Flamengo, em 1992, foi tido e havido pentacampeão brasileiro ao triunfar sobre o Botafogo, desfilou com uma réplica, mas a original jamais foi entregue. Fato é que, após aquela edição, nenhum outro clube recebeu a taça das bolinhas. A relação entre São Paulo e Flamengo, parceiros na criação do Clube dos 13 e da Copa União, começou a ruir no início dos anos 90, quando Carlos Miguel Aidar deixou a presidência da entidade e do tricolor. O sucessor, Fernando Casal Del Rey, adquiriu o lateral-esquerdo Leonardo. O rubro-negro receberia dois jogadores e mais uma compensação financeira de 400 mil dólares, mas os atletas não emplacaram e o dinheiro jamais foi depositado, jura o clube carioca. Em 1992, o tricolor fez coro com a imprensa paulista, que toliu do Fla o título de 1987. Justo o São Paulo, que liderou o motim contra a CBF. Após o bicampeonato mundial, em 1993, os paulistas passaram a reivindicar para si o posto de melhor time da era pós-Pelé, desprezando o Flamengo de Zico. Mas o clube da Gávea ainda tinha mais brasileirões, mesmo contestada a Copa União. O São Paulo chega ao terceiro mundial em 2005, tornando-se o clube brasileiro com mais títulos internacionais, desbancando Pelé e Cia. Mas faltava o recorde brasileiro. Campeão em 2006, repetiu a dose em 2007, igualando-se ao Flamengo? Não para o presidente do tricolor, Juvenal Juvêncio: "somos o único penta", decretou, durante o Prêmio Brasileirão, promovido pela CBF, em dezembro 2007. Ricardo Teixeira ratificou. "Essas pessoas, com caráter menos seguro, mudam o sentido das coisas. O presidente do São Paulo, no meu ponto-de-vista, agiu com mau-caratismo porque assinou, lá atrás (1987), o documento que consagrava o Flamengo como campeão", chiou Márcio Braga. Juvêncio era diretor de futebol e homem de confiança de Carlos Miguel Aidar. Em 2010, o já ex-presidente Márcio Braga, em vão, apelou para que sua sucessora,Patrícia Amorim, abandonasse a chapa de Fábio Koff, que tentava a reeleição no comando do Clube dos 13, e apoiasse o também ex-presidente Kleber Leite, candidato da oposição e o preferido da CBF e da TV Globo. Sem o esvaziamento de Patrícia, Kléber foi derrotado por Koff. Coincidência ou não, alguns dias depois Ricardo Teixeira entregou ao São Paulo a taça das bolinhas. O presidente doConselho Fiscal do Flamengo, Leonardo Ribeiro, retaliou abrindo processo para expulsão de Teixeira do quadro de sócios do clube. Alguns meses depois, a própria Patrícia Amorim, por divergências nos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, rompeu com o Clube dos 13, do qual era vice-presidente. No início de 2011, a CBF finalmente reconhece a Copa União de 1987. Final feliz? Qual nada. O Sport não aceitou dividir o título com o Flamengo e acionou aJustiça de PE, que obrigou a CBF a voltar atrás. O clube carioca recorreu à decisão e a briga continua. Apesar de toda a bagunça, a Copa União cumpriu seu papel e revitalizou o fubebol brasileiro, tirando-o da crise. Com a alternativa da Copa do Brasil, a entidade enxugou o Campeonato Brasileiro, que hoje conta com 20 clubes na série A. As viradas de mesa acabaram, os contratos de transmissão melhoraram absurdamente, elevando a visibilidade dos clubes e, consequentemente o valor das cotas de patrocínio. A seleção voltou a decidir Copas e os brasileiros quebraram as hegemonias argentina e uruguaia na Libertadores. "Fui eu que fiz isso tudo. Não sou um técnico em marketing nem merchandising, mas foi o desenvolvimento da nossa política, minha, do Carlos Miguel, do Celso Grellet e do João Henrique Areias, fomos nós quatro que montamos esse esquema. O Grellet e o Areas são tão bons que estão no mercado até hoje. Na verdade, essa parte foi feita por eles (o marketing) e com muito sucesso. Trouxemos novos conceitos dos EUA e da Europa para dar sustentabilidade ao campeonato, coisa que a CBF não conseguia. Foi um grande sucesso de público, renda e ideias novas. Glória para nós", completa um vaidoso Márcio Braga: "o Flamengo é o campeão da Primeira Divisão de 1987 e o Sport é o campeão brasileiro da Segunda Divisão. Tão simples quanto isto". Veja abaixo a segunda das 3 matérias especiais com Márcio Braga (marcio2.mp4, 9mb) vídeos no site http://www.maurosantanna.com/paginas/copa_uniao_faz_25_anos.htm |
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Comentário de Joao Henrique Areias em 4 julho 2012 às 21:40 Este é um dos cases do livro Uma Bela Jogada - 20 anos de marketing esportivo.
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