Gestão e Marketing Esportivo

por João Henrique Areias

 

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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Entrevista com João Henrique Areias


 .

João Henrique Areias é um dos papas do marketing esportivo brasileiro. Pioneiro, arrojado e empreendedor, protagonizou as principais mudanças e avanços no tratamento das empresas e parceiros comerciais no futebol brasileiro. Só para se ter noção do que Areias representa, segue uma parte de seu vastíssimo currículo:


Trabalhou durante 12 anos na IBM (1975-1987), nas áreas de vendas, marketing e comunicação.
Em 1987, iniciou sua carreira na indústria do esporte, como  Diretor de Marketing do Clube dos 13 e Vice Presidente de Marketing do Flamengo, onde exerceu cargos de diretoria  no Departamento de Futebol (2004) e no Departamento de Esportes Olímpicos (2009)
Desenvolveu e comercializou  diversos projetos esportivos, como o Plano de Marketing da Copa União 87 (campeonato brasileiro de futebol) que viabilizou o Clube dos 13, sendo o primeiro evento esportivo oficial, financiado exclusivamente pela iniciativa privada no Brasil. Teve importante papel na implantação dos PONTOS CORRIDOS no Campeonato Brasileiro de Futebol, a partir de 2003.
Viveu e trabalhou nesta área, 3 anos nos EUA e 4 anos na Espanha, onde participou de cursos de Gestão e Marketing Esportivo na Universidade de Nova York e da Fundação Real Madrid.

No papo que tive com ele semana passada, ele falou sobre o seu atual empreendimento, o de fazer de Petrópolis uma cidade esportiva, e é claro, sobre o Flamengo. Vale a pena ler bem atentamente o que ele diz.
 


Queria que você falasse um pouco sobre essa sua nova fase em Petrópolis. Desde quando você está aqui?
Eu cheguei aqui em janeiro. Na verdade, o que aconteceu foi um convite do prof. Lancetta ( Carlos Alberto Lancetta, prof. De Ed. Física, com passagens por diversos clubes e que atualmente coordena a Secretaria Especial para a Copa 2014 e Jogos de 2016), que me ligou no fim do ano passado, me falando de um projeto em princípio com o Serrano. Disse na hora que eu não tinha interesse em clube de futebol, não era essa a minha vontade naquela época. Ele insistiu, disse para eu vir conhecer o Claudio Rocha (presidente de uma empresa de informática, a Allen), que tinha algumas idéias para conversar comigo. Foi fácil vir para cá, eu fui criado aqui, minha mãe é daqui, eu tenho um carinho enorme por Petrópolis, quem anda por aqui se sente mesmo, sem exagero, numa cidade da Europa. Eu vim, acreditando que seria só uma conversa, mas o Claudio acenou com um projeto mais amplo, de tornar Petrópolis uma referência esportiva, e mais, dar apoio às equipes, entre elas o Serrano, a Pé de Vento (equipe de atletismo), as equipes da Liga Petropolitana de Esportes e também criar condições para construir equipamentos esportivos, como uma arena, ginásio, campo de futebol, centro de treinamento...aquilo me despertou a atenção. Pensei "legal, projeto bacana". Essa disposição em apoiar projetos mais comprometidos em longo prazo é difícil aqui no Brasil, porque um empresário sozinho não vai fazer tudo isso. Embora ele tenha condições em termos de capacidade de investimento, um investidor como o Claudio vai querer o apoio da população, das empresas e da iniciativa pública. Então estamos tentando canalizar o esforço de todos esses atores pra fazer de Petrópolis uma referência esportiva. Uma das estratégias para isso é trazer seleções que virão disputar a Copa de 2014 para aclimatação e delegações de países que estarão disputando os Jogos de 2016. Para a Copa do Mundo a ideia é trazer a Alemanha pra cá. Para as Olimpíadas já temos condições e estrutura para abrigar 12 modalidades.

Mudando um pouco de assunto, em 2009 você se candidatou à presidência do Flamengo. O que aconteceu, quais as reflexões que você faz sobre a retirada da sua candidatura? Muitas pessoas acreditavam no seu potencial naquelas eleições.
Na verdade eu não era o candidato naquela época. Havia grandes empresários, presidentes de grandes empresas, rubro negros cansados de todo esse amadorismo, essa governança do clube, que é pouco transparente, amadora e que não é saudável para a instituição, embora existam pessoas boas e corretas, mas é um modelo que já venceu, que funcionou bem até os anos de 1970, mas hoje não cabe mais no esporte moderno e nas relações que ele implica, que não é mais apenas com o torcedor e o sócio, é também com televisão, empresas e investidores. Tem que ter transparência, tem que haver profissionalismo. Decidiu-se num primeiro momento que o candidato seria o Humberto Mota (presidente da Duty Free), mas ele não pôde. Ficou aquela discussão sobre quem seria, quem poderia ir, uma hora alguém disse "vai o Areias, ele tem experiência". Falei "vocês estão brincando, eu não vou trabalhar de graça, não posso trabalhar de graça, a não ser que vocês me banquem". Falei assim, claramente. Começamos a campanha, mas num determinado momento, como a chapa foi a última a se inscrever, uma parte que estava apoiando achou melhor uma junção com a chapa do Plinio (Plinio Serpa Pinto, ex- dirigente do Flamengo, que se candidatou em 2009). Eu falei, tudo bem, vocês podem se juntar, mas eu estou fora. Nada contra o Plinio, mas ele tem outra linha de raciocínio, diferente da minha. Foi por isso que eu saí.

E o atual trabalho desenvolvido pelo marketing do Flamengo, como você avalia?
No Flamengo é muito difícil. Não vou nem criticar quem está lá, é muito complicado. Quando eu e outros profissionais criamos a FlaBasquete (comunidade lançada em 2009 para arrecadar recursos para quitar 4 meses de salários atrasados do time de Basquete do Flamengo), eu falei com Marcio Braga que minha condição era trabalhar com total liberdade, sem nenhum tipo de interferência. Se quiser, eu vou. Ele disse que tudo bem, você tem carta branca pra trabalhar da forma que julgar melhor. Criamos um modelo de gestão diferente do clube, fizemos um site só para o basquete, o pessoal do marketing não queria que a gente fizesse, por que já tinha um site do Flamengo. Esse site do clube não dava as respostas de que precisávamos, então atropelamos ele, literalmente. Fizemos o flabasquete.com, que virou até torcida, vendemos camisas, os torcedores participaram em peso, e aí, aconteceu aquilo. Entrou a nova presidente, a nova diretoria com a ideia "ah, isso foi feito pelo João, ele não nos apoiou, então tira".  Só vejo essa razão, não tem razão técnica. Porque se você exclui um trabalho, mas dá condições para o marketing ter as mesmas informações que nós tínhamos sobre o basquete, e já estávamos planejando fazer o mesmo com o vôlei, tudo bem. Mas a idéia foi tirar tudo, simplesmente por que deu certo, e eu não era do partido deles. Assim são os clubes de futebol, e infelizmente o Flamengo é gerido dessa maneira.

Muitos dizem que a idéia de "se cada flamenguista desse um real, o Flamengo seria imbatível" é ingenuidade. Você também pensa assim, ou seria válido o esforço?
Não, não acho que seja ingenuidade não. Com o FlaBasquete foi viabilizado um terço dos pagamentos atrasados e correntes dos profissionais do basquete, bancado pelos torcedores, literalmente. A torcida acreditou por que tinha transparência na aplicação daqueles recursos. Você tem o exemplo do clube inglês, o Wimbledom, que foi comprado pelos torcedores. Chegou a tal ponto que os torcedores decidiram se reunir e comprar o clube, até porque na Inglaterra os clubes são de fato empresas, tem ações na bolsa inclusive. Tudo que é feito com objetivo claro, com transparência, eu embarco, tô dentro. Se houver um objetivo, e na minha percepção vai ajudar o clube, com seriedade, sem pessoas tirando proveito da instituição apenas pra colocar dinheiro no bolso, acho sim que é super válido. 

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Tags: esportivo, futebol, marketing

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